Foi entre o servir um café e abrir a torneira da água para lavar copos que pude percebê-la entrar pela porta. Desceu vagarosamente as escadas, na esperança de reconhecer um rosto, um ombro, onde pudesse descansar a suas atribulações, mas não o encontrou.
Sentou-se ao balcão, olhou novamente ao redor balançando os cabelos que exalavam um perfume forte a “Narciso Rodriguez”. Pediu um “bacardi limão” e iniciou a conversa comigo.
Perguntou com simpatia se podia desabafar com o barman.
Disse-lhe que sim, estava ali para isso mesmo, servia copos e ouvia das pessoas tudo o que me queriam contar. E dizendo-lhe que já me tinham contado de tudo ao balcão deste bar, muitas das vezes precisamente nesse lugar onde ela se encontrava agora sentada, perguntei-lhe o nome.
Ela, mais à vontade respondeu que se chamava Francisca e que estava feliz, tinha sido promovida no emprego, que ia ganhar o dobro do ordenado.
Dei-lhe os parabéns e perguntei o que tinha ela para me contar…
Falamos da vida, das angústias, de bondades, traições e rimos com vontade, mas de toda a conversa aquilo que me ficou no imaginário foi este trecho que cito:
“Quando um homem “pina” por fora, quer vingança, quer satisfação, quer alimentar o ego. Uma mulher raramente o faz por egoísmo! Tirando as que o fazem por “cócegas”, há sempre um sentimento forte para o fazer, e sabes porque? Raras são as vezes que os amantes são melhores que os maridos, aliás, devem contar-se pelos dedos os casos que conhecemos! Mas na sua maioria, e infelizmente, as amantes são melhores que as mulheres”.
Anui, lavei mais uns copos, à mão, para poder estar mais perto dela.
Bebeu o último gole, pagou e sai para a rua só com um “até depois”. No banco que ocupava ao balcão, ficou, por mais uns instantes, o cheiro do seu perfume e uma basta gorjeta.
Até hoje nunca mais entrou no “setebares”.
