
Eu sigo-te e tu foges.
É este o meu destino:
beber o fel amargo em luminosa taça,
chorar amargamente um beijo teu, divino,
e rir olhando o vulto altivo da desgraça!
Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito,
por mais que fujas sempre um sonho há-de alcançar-te.
Se um sonho pode andar por todo o infinito,
de que serve fugir se um sonho há-de encontrar-te?
Demais, nem eu talvez perceba se o amor,
é este perseguir de raiva, de furor,
com que eu te sigo assim como os rafeiros leais,
ou se é então a fuga eterna, misteriosa,
com que me foges sempre, Ó noite tenebrosa!
Por me fugires, sim, talvez me queiras mais...
Florbela Espanca