sexta-feira, 18 de abril de 2008

Vidas subterraneas

Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino: beber o fel amargo em luminosa taça, chorar amargamente um beijo teu, divino, e rir olhando o vulto altivo da desgraça! Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito, por mais que fujas sempre um sonho há-de alcançar-te. Se um sonho pode andar por todo o infinito, de que serve fugir se um sonho há-de encontrar-te? Demais, nem eu talvez perceba se o amor, é este perseguir de raiva, de furor, com que eu te sigo assim como os rafeiros leais, ou se é então a fuga eterna, misteriosa, com que me foges sempre, Ó noite tenebrosa! Por me fugires, sim, talvez me queiras mais... Florbela Espanca