O nosso amigo foi a nossa morte. Éramos mesmo melhores do que todos os outros que estudavam com o Horowitz, mas o Glenn era melhor do que o próprio Horowitz, ainda o estou a ouvir dizer isto, pensava eu. Mas por outro lado, disse ele, nós estamos ainda vivos e ele não. Ainda que muitos à sua volta tivessem entretanto morrido, muitos parentes, amigos e conhecidos, nenhuma dessas mortes o tinha impressionado minimamente, mas a morte do Glenn tinha sido para ele um golpe mortal, e esta palavra mortal tinha sido proferida por ele com uma precisão terrível. Não é necessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa, disse ele. A morte do Glenn tinha-o atingido profundamente, disse ele, pensava eu ali no meio da estalagem. Ainda que essa morte fosse inteiramente previsível, fosse até o que há de mais evidente, assim disse ele. E no entanto não a concebemos, não a entendemos, não a concebemos. O Glenn tinha uma grande predilecção pela palavra e pelo conceito de náufrago, lembro-me perfeitamente, o náufrago tinha-lhe ocorrido na Sigmund Haffnergasse. Quando olhamos para as pessoas só vemos mutilados, por fora ou por dentro, disse-nos uma vez o Glenn, ou mutilados por dentro e por fora, não há senão gente assim, pensava eu. Quanto mais tempo olhamos para alguém tanto mais mutilado nos parece, porque é mais mutilado ainda do que nós podemos admitir, mas é essa a realidade. O mundo está cheio de mutilados. Andamos na rua e só encontramos mutilados. Convidamos alguém a visitar-nos e ficamos com um mutilado em casa, assim dizia o Glenn, pensava eu. Na realidade eu próprio fiz diversas vezes essa observação, e não me restava senão concordar com o Glenn.
"Thomas Bernhard"
quinta-feira, 5 de junho de 2008
O Náufrago
O nosso amigo foi a nossa morte. Éramos mesmo melhores do que todos os outros que estudavam com o Horowitz, mas o Glenn era melhor do que o próprio Horowitz, ainda o estou a ouvir dizer isto, pensava eu. Mas por outro lado, disse ele, nós estamos ainda vivos e ele não. Ainda que muitos à sua volta tivessem entretanto morrido, muitos parentes, amigos e conhecidos, nenhuma dessas mortes o tinha impressionado minimamente, mas a morte do Glenn tinha sido para ele um golpe mortal, e esta palavra mortal tinha sido proferida por ele com uma precisão terrível. Não é necessário vivermos ao lado de alguém para nos sentirmos ligados a esse alguém mais do que a qualquer outra pessoa, disse ele. A morte do Glenn tinha-o atingido profundamente, disse ele, pensava eu ali no meio da estalagem. Ainda que essa morte fosse inteiramente previsível, fosse até o que há de mais evidente, assim disse ele. E no entanto não a concebemos, não a entendemos, não a concebemos. O Glenn tinha uma grande predilecção pela palavra e pelo conceito de náufrago, lembro-me perfeitamente, o náufrago tinha-lhe ocorrido na Sigmund Haffnergasse. Quando olhamos para as pessoas só vemos mutilados, por fora ou por dentro, disse-nos uma vez o Glenn, ou mutilados por dentro e por fora, não há senão gente assim, pensava eu. Quanto mais tempo olhamos para alguém tanto mais mutilado nos parece, porque é mais mutilado ainda do que nós podemos admitir, mas é essa a realidade. O mundo está cheio de mutilados. Andamos na rua e só encontramos mutilados. Convidamos alguém a visitar-nos e ficamos com um mutilado em casa, assim dizia o Glenn, pensava eu. Na realidade eu próprio fiz diversas vezes essa observação, e não me restava senão concordar com o Glenn.
"Thomas Bernhard"